Carta Aberta a Theodomiro Carneiro Santiago – Turma de 1968 – Jubileu de Ouro

“Itajubá, 3 de dezembro de 2018.

Caro Theodomiro;

Somos a TURMA EFEI-68. Acabamos de celebrar na querida Itajubá nosso Jubileu de Ouro, com eventos que nos envolveram de 15 a 18 de novembro. Pode não ser muita coisa essa efeméride, se considerarmos que a instituição criada por você e nomeada sucessivamente de IEMI/IEI/EFEI/UNIFEI completou na mesma ocasião 105 anos de existência gloriosa, tempo em que colocou no parque industrial e urbano brasileiro milhares de engenheiros de sabida competência, os quais há 100 anos vêm projetando, construindo e preservando infraestruturas, assim como executando serviços no âmbito energético, essenciais ao progresso e modernização de nossa pátria.

O glorioso para a TURMA EFEI-68 é, sim, fazer parte desse imenso universo de profissionais especializados e ainda ostentar a marca de ser a maior turma já formada em sua instituição: 126 engenheiros, entre eletricistas e mecânicos, dos quais 94 ainda partilham o privilégio da vida. Trinta e dois já não pertencem ao plano terreno, mas continuam presentes em nossos corações. Por tudo isso, caro Theodomiro, esta celebração.

As festividades de nosso Jubileu de Ouro começaram a ser preparadas a cerca de um ano, sob a ótica e os cuidados de uma comissão organizadora formada pelos colegas Josmal, Luizinho e Zezão. Você sabe os seus nomes completos. A comissão foi bem assistida pela maioria de nós, para solucionar problemas inerentes ao evento que organizava. Desta vez, por ostentarmos a marca cinquentenária, tivemos que nos empenhar um bocado a mais em relação às vezes anteriores, em que organizamos encontros quinquenais, uma tradição arraigada entre os filhos de sua gloriosa casa. Estabelecemos um cronograma de eventos que geraram inúmeras tarefas a serem cumpridas, tudo ao sabor da arte de engenhar. Temos a satisfação de relatar agora a você, caro Theodomiro, o resultado do nosso esforço coletivo.

Na bela manhã de quinta-feira, 15, houve o primeiro encontro, bastante informal, na praça que leva o seu nome. Lá, já começamos a envergar uma camiseta com nosso famoso escudo e com dizeres que anunciavam o porquê de nossa presença em Itajubá. O encontro propiciou abraços saudosos, risos e troca de cordialidades. À noite, jantamos juntos, conversamos, dançamos, trocamos histórias, como você também deve ter feito em ocasiões semelhantes em sua época. Claro que tudo isso foi muito divertido, ainda mais com a presença de nossos familiares que já acumulam gerações.

No dia seguinte, sexta, nos reunimos de manhã no belíssimo campus da UNIFEI – e veja só, caro Theodomiro – em que se transformou, comparando épocas, o seu então modesto instituto, agora uma imensa área infraestruturada para a formação de engenheiros e geração de conhecimentos técnico-científicos em engenharia, algo do tamanho dos seus melhores sonhos visionários, temos certeza disso.

Naquele local, descerramos uma placa com os nomes dos colegas falecidos, 32, com direito a toque de silêncio, executado por um soldado do 4º Batalhão de Engenharia de Combate, unidade do Exército Brasileiro fundada na mesma época em que você instituiu sua gloriosa casa de ensino superior. Em seguida, ouvimos a fala entusiástica do Reitor da UNIFEI, Professor Dagoberto Alves de Almeida, a quem presenteamos com um exemplar do nosso livro comemorativo. Verdade! Decidimos documentar de forma definitiva nosso Jubileu de Ouro, através de um livro de depoimentos, memória e saudades. As palavras pujantes do Reitor da UNIFEI corroboraram aquilo que sempre imaginamos sobre a instituição que você criou em 1913, para ser grande e eterna.

Veio a hora do almoço e de novo nos reunimos à mesa para mais conversas, risos e convívio afetivo. A sexta-feira de celebrações foi encerrada com uma Missa de Ação de Graças, na belíssima Igreja de Nossa Senhora da Agonia, de onde se avista o Campus da UNIFEI. A emoção que tomou conta de todos nós no ato religioso, foi resultado da transcendência desse encontro memorável. Você esteve presente conosco em cada minuto dessa homilia; nossa memória e gratidão garantiram isso.

O sábado amanheceu com as melhores condições para a continuação do nosso encontro. Veja só, caro Theodomiro, estávamos em um período com predominância de chuvas frequentes na região sul-mineira. São Pedro foi camarada, determinando bom tempo nesses três dias especiais para nós. Reunidos na Praça do Jardim, apelido carinhoso do logradouro que leva o seu nome, fomos convidados a subir a Rua Cel. Rennó até às instalações do antigo prédio onde tivemos aulas de 1964 a 1968. Lá, constatamos a sua presença marcante, em cada canto e em cada olhar. Sua presença materializou-se de vez entre nós, quando adentramos o salão onde assistiríamos a um programa artístico-cultural especialmente preparado para a TURMA EFEI-68.

Não há nenhum exagero em dizer de sua presença no local. É que estava exposta na parede do referido salão uma fotografia clássica sua, não sabemos quantas vezes reproduzida em livros, revistas e jornais. Seu olhar incisivo acompanhava cada gesto nosso, mas havia nesse olhar a complacência e o carinho de quem era o anfitrião a nos receber no padrão acolhedor mineiro, o que deve ter sido uma de suas marcas em vida.

Um trio musical composto de violino, saxofone e teclado, todos pratas da UNIFEI, executou o hino de nossa turma – Foi Muito Bom te Ver – composição de nosso colega Lejandre. Em seguida, adentrou o salão o Coral UNIFEI, que nos brindou com cinco músicas do cancioneiro popular brasileiro. As cerimônias foram concluídas com o descerramento de uma placa contendo os nomes dos 126 componentes da TURMA EFEI-68, seguindo-se a visitação às instalações e laboratórios do antigo instituto que você fundou em 1913.

Caro Theodomiro, ali a gente se viu imerso em um turbilhão do tempo. Olhando para nós mesmos, estávamos em 2018; olhando para as máquinas, equipamentos e aparelhos, símbolos densos de uma engenharia que agora compunham um museu, nos sentimos no tempo em que você transitava com orgulho por salas e corredores, assim como centenas e centenas de alunos e inúmeros professores e funcionários, nas décadas que se seguiram. Foi uma manhã contagiante de emoções estampadas em nossos semblantes, experiência para ficar indelével em nossa memória. O Jubileu de Ouro cumprira o seu papel.

De novo, hora do almoço e de novo nos reunimos à mesa para mais conversas, risos e convívio afetivo. Desta vez, de maneira totalmente informal e descontraída, quando praticamos ao mesmo tempo a degustação de pratos e uma cantoria alegre dos que se sabiam felizes. E não foi só isso, caro Theodomiro, até um trenzinho de colegas, atrelados em uma sucessão de braços nos ombros, rolou alegre e cantarolante pelo recinto do almoço/churrasco. Os velhinhos viraram jovens por alguns momentos. E tudo, caro Theodomiro, documentado por imagens da era digital, como dita o nosso tempo.

Era o que precisávamos, como justo tributo, comunicar a você nesta carta aberta, caro Theodomiro, iniciador na querida cidade de Itajubá, em 1913, de uma saga redentora ao país, sem o quê, nenhum de nós traria no peito, ontem e hoje, o orgulho de engenheiro que nos move e nos realiza. Obrigado, Mestre!

José Carlos da Silva – TURMA EFEI-68″