Nota de Pesar – O que desabou foi, mais uma vez, a dignidade humana

 O caso do prédio que desabou no centro da cidade de São Paulo mostra que os verdadeiros invasores do patrimônio público são, de fato, não a massa de indigentes e desvalidos, mas o Estado, que, em todas as suas esferas, se esquiva de suas responsabilidades básicas e, por consequência, denigre a dignidade dos brasileiros mais desfavorecidos, pois que lhes são sistematicamente negadas as condições humanitárias mínimas de sobrevivência.

 Graças ao atual modelo político vigente, parte significativa das legendas políticas das mais variadas tendências têm dado guarida a grupos que se alternam na prática da extorsão de nossas instituições e empresas públicas. Esse estado de coisas vai contra ao fato de que o Estado deveria ser, tão somente, o mantenedor das ações de cidadania por meio da educação e da saúde, assim como o executor de políticas sérias de segurança e justiça social.

 O que se observa é, justamente, uma inversão desses valores constitucionais, com o Estado aliado à parte do partidos políticos e organizações variadas que, conjuntamente, nada mais são do que mercadores do sofrimento alheio. Situação abjeta quando observamos, por exemplo, segmentos privilegiados recebendo auxílio-moradia ao lado da omissão e do descaso na manutenção de verdadeiros depósitos de gente, nos guetos de muitas favelas e nos prédios abandonados. A trágica síntese de que o direito constitucional ao abrigo, à moradia é vilipendiado por aqueles que deveriam ser seus garantidores.

 A queda do edifício do Largo do Paissandu é a “bola da vez”, e existem tantas outras que, daqui a pouco, cada uma delas vai ser obscurecida pela nova desgraça do momento.

 O período eleitoral se aproxima e, mais uma vez, nossa instituição, assim como as demais, será obrigada a seguir regras de conduta sobre como deveremos nos conduzir nesse período. Pois fica aqui a reflexão de que talvez consigamos reduzir essa absurda insensatez coletiva que nos tem permitido substituir a razão pela emoção e pelo fanatismo se nos devotarmos à criteriosa seleção na escolha daqueles que nos governarão e legislarão.

Dagoberto Alves de Almeida

Reitor da Unifei