O abandono de cargos no campus da Unifei-Itabira

“O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem”
Guimarães Rosa

 

O grande filósofo alemão Immanuel Kant dizia que “O sábio pode mudar de opinião. O idiota nunca”. Há muito, aprendi que falar aos tolos e presunçosos – indivíduos impermeáveis a qualquer outra visão que não à própria –, fanatizados por posturas pessoais sem qualquer lastro, é, frequentemente, uma total perda de tempo. Assim, essa nota tem a intenção de falar aos indivíduos que estão propensos à reflexão e, até mesmo, a rever suas posições, desde que convencidos por argumentos que se apresentem como sólidos e razoáveis, comprováveis mediante dados e fatos, como os que aqui pretendo apresentar.

Há determinadas circunstâncias em nossas vidas profissionais – assim como na vida como um todo – que se destacam, seja pelo inusitado, grandioso, torpe, significativo ou, simplesmente, pela baixeza como se apresentam. Essa é uma delas. No dia nove de dezembro, o prof. Dair de Oliveira, conjuntamente com seu adjunto, o prof. Marcio Yasuda, divulgaram carta aberta e nos enviaram um memorando sobre suas renúncias aos cargos de diretor e de vice-diretor do campus da Unifei em Itabira, respectivamente. Ato que foi compartilhado pelos seus indicados. Passadas várias semanas – até para que houvesse a necessária ponderação sobre esse grave fato –, faço alguns contrapontos às dificuldades alegadas por eles na citada carta, a começar pelo uso inadequado do termo renúncia, pois que tal ato representou meramente um reles abandono de cargos.

Para que essa atitude fosse considerada uma renúncia, de fato, seria necessário, quando do comunicado prévio ao superior imediato, que os servidores interessados em entregar seus cargos neles se mantivessem até que fossem substituídos via novas portarias de empossamento, evitando-se, dessa forma, riscos de possíveis prejuízos à instituição, pois é assim que ocorre em toda e qualquer substituição de cargos. Afinal, o então diretor de campus, assim como qualquer ocupante de cargos na Administração Pública, para que pudessem atuar tiveram que ter portaria autorizativa. O fato é que o campus de Itabira ficou sem comando por alguns dias. Sorte não termos tido prejuízos mais graves e, nesse sentido, agradeço ao prof. José Eugenio Lopes de Almeida e aqueles que prontamente nos auxiliaram na condução do campus de Itabira. Aliás, causa-me certa estranheza que aqueles que decidiram por abandonar seus cargos não tenham se manifestado oficialmente, solicitando desconto quanto aos CDs e FGs que receberam indevidamente nos dias em que a direção do campus de Itabira, pelas suas iniciativas, ficou sem ocupantes.

A gravidade dessa ação é algo sem precedentes, que mancha a história centenária de nossa querida Unifei. Vale destacar que essa instituição, pública que é, custa anualmente à Nação mais de 200 milhões de reais, com quase dez mil pessoas ligadas a ela diretamente e, portanto, merece ser tratada com o devido zelo e respeito. Sua condução deve ser feita por gente séria e não por pessoas que, não se sentindo capazes de defenderem adequadamente seus argumentos, decidem simplesmente “abandonar o barco”, como se cada um deles, infantilmente, dissessem: “se não é do jeito que eu quero, então não quero mais brincar”.

Feita essa ressalva, elenco as inconsistências na tal “carta aberta de renúncia”:

  1. Que o diretor de campus foi impedido de procurar informações sobre o curso de Medicina.
    Uma meia verdade não deixa de ser uma mentira, diz o ditado. Nesta administração, o reitor ou um pequeno grupo de pessoas não mais toma decisões estratégicas à revelia dos fóruns coletivos de discussão, como seus conselhos superiores e grupos gestores. Nesse sentido, o Conselho Universitário (Consuni) se reuniu em 17/03/2014 e deliberou que a Unifei faria estudos relativos à viabilidade de criação de cursos de Medicina em seus campi e que, uma vez executados, eles seriam encaminhados ao Ministério da Educação (MEC). Para tanto, o Consuni nomeou comissão específica, que elaborou os projetos dos cursos de Medicina de Itabira e de Itajubá, os quais, após aprovação no Conselho Superior, foram encaminhados ao MEC para avaliação e possível aprovação. O MEC viu mérito nos projetos, porém, devido à situação econômica do país, não os aprovou, deixando para uma oportunidade futura. Portanto, a decisão relativa a essa importante questão, desde então, refere-se unicamente ao MEC.
    Foi dito ao diretor de campus que não caberia nem a ele, nem a quem quer que fosse atuar nessa questão sem a estrita observância e autorização do Consuni. Essa recomendação foi feita no sentido de que não se criassem expectativas sem lastro institucional, o que, certamente, provocaria constrangimentos e frustrações à instituição e, principalmente, às localidades, visto que nessa questão a Unifei possui limitada ou nenhuma capacidade de concretização sem o explícito apoio do MEC. Depreendo que tais explicações não foram suficientes para o então diretor de campus, visto que ele se utilizou dessa questão para justificar o abandono de seu cargo, além de se colocar como campeão das aspirações a um futuro curso de Medicina para a região de Itabira. Ao tomar tal atitude, desconsiderou, mais uma vez, os trabalhos de uma comissão do nosso conselho máximo, na qual, por sinal, havia membros do campus avançado de Itabira.
  2. Na tal carta, há também reclamação quanto ao envio de pick-ups do campus de Itabira para o campus sede, assunto este que levou o então diretor de campus a provocar, na ocasião, uma verdadeira comoção junto à comunidade acadêmica de Itabira. Como resposta, fiz uma explicação detalhada sobre a necessidade de bem gerenciarmos recursos públicos entre os vários setores da instituição, de tal forma a bem equilibrarmos eventuais discrepâncias. Muitos entenderam ser razoável e necessária uma decisão como esta, visto que são pautadas na boa gestão de recursos que são inerentemente públicos e, por isso mesmo, precisam ser bem administrados. Aliás, obrigação esta de todo gestor de instituição pública responsável que seja, de fato, consciente de seu papel. Reafirmo que qualquer recurso, seja deste ou daquele campus, que não esteja sendo devidamente aproveitado será realocado onde puder ser mais útil à instituição. A quantidade de veículos no campus de Itabira estava além do necessário para suas atividades quando comparada com as demandas do campus sede. Por sinal, a instituição estava e ainda está impedida de adquirir novos veículos para a renovação de sua frota. Vale destacar também que as pick-ups de Itabira, já há anos no campus, apresentavam baixíssima quilometragem, o que comprovava a sua ociosidade. Esse é mais um exemplo da postura vitimizante e inefetiva que tanto tem nos prejudicado e constrangido, no que tange ao uso de recursos públicos.
  3. Em determinado trecho, os autores da carta aberta se apresentam como paladinos na defesa dos interesses do campus avançado ao colocarem a administração da Universidade como responsável por prejuízos ao campus de Itabira. Tais alegações são profundamente cruéis e falsas, como ilustram alguns dos exemplos abaixo listados:
    a) No início de 2015, o assim chamado Prédio II, cuja construção foi iniciada e finalizada durante o primeiro mandato da atual administração, estava com cronograma atrasado, pois que a obra carecia de recursos financeiros para ser finalizada. Como consequência, havia o risco desta obra se arrastar para um período de conclusão longo e incerto. Como as inúmeras ações (cf. ofícios ref. 025/2015, 028/2015 e 053/2015, enviados pelo reitor ao então prefeito de Itabira) junto à administração municipal, não surtiram o resultado esperado, foi necessário que eu me apresentasse publicamente em vários meios de comunicação para que, finalmente, o então governo municipal se apercebesse da sua importância, liberando, finalmente, a verba para a conclusão do prédio.
    b) Estive na sede da Vale no Rio de Janeiro, em 17/04/2016, em viagem na qual fiz questão de convidar o Sr. Dair de Oliveira para me acompanhar. Nessa reunião, além do convite para a inauguração do Prédio II (cf. ofício ref. 159/2015, enviado pelo reitor ao Sr. Luiz Mello, gerente executivo de Tecnologia e Inovação da Vale), cogitei sobre a expectativa de que senão todo, pelo menos, parte da dezena milhões de reais que estava para ser liberada por conta dos royalties do minério devidos à municipalidade também pudessem ser utilizados para dar início à construção do projeto GPA&A. Lamentavelmente, nem um tostão desse montante atendeu a qualquer interesse de expansão do campus da Unifei em Itabira.
    c) Espantosamente, apesar de ser orientada pela Reitoria da Unifei (cf. ref. 049/2016), a administração municipal anterior colocou “na praça” um edital de licitação de mais de 100 milhões de reais sem qualquer lastro orçamentário. Edital esse que, logo em seguida, foi vetado pelo TCE. O diretor do campus de Itabira, que é aquele a quem cabe a defesa dos interesses da Unifei naquela região, se omitiu em trazer essa questão crucial para conhecimento da Reitoria dentro do tempo devido. Nossas ações foram tomadas graças a valorosos servidores que nos orientaram previamente sobre o que estava sendo arquitetado à revelia da Unifei.
    Nos ofícios acima citados e em vários outros – que podem ser obtidos por qualquer cidadão mediante a Lei de Acesso à Informação – sempre defendi e solicitei a construção do campus de Itabira. Em meio a todas essas dificuldades externas à Unifei, saliento que elas foram ainda agravadas internamente, visto que, no início do mandato do Sr. Dair de Oliveira à frente do nosso campus avançado, este não colocava o reitor a par desses difíceis acontecimentos que ameaçavam, sobremaneira, a concretização do campus na cidade de Itabira (numerosas atas do Consuni no período de 2015-16 ilustram as dificuldades da Reitoria perante a ausência de informações factíveis emanadas da direção do campus de Itabira).
  4. Outra questão colocada como justificativa para o abandono de cargos foi o fato de o campus da Unifei em Itabira contar agora com mais de uma unidade acadêmica. Segundo a missiva, essa questão vai contra uma suposta missão do campus que, nesse sentido, feriria um tal modelo inovador segundo o qual o campus de Itabira teria sido concebido. Não há como escapar da questão central de que qualquer que tenha sido a filosofia que motivou o surgimento do campus de Itabira, ela nunca foi devidamente discutida em termos coletivos. De fato, em meu entendimento e no de vários que compartilham os ideais da administração atual, isso foi feito de forma deliberada para que não houvesse interferências, ainda que entendidas como contribuições que pudessem, eventualmente, divergir de qualquer visão particular que nunca foi claramente exposta. Se hoje ainda existem enormes dificuldades para se entender, de fato, que propalado modelo de campus é esse, eu reputo tal inconsistência à deliberada falta de transparência. Curiosamente, tal postura nos levou às recentes inconsistências, aos abusos e desrespeitos hierárquicos que culminaram com o abandono de cargos por servidores que foram eleitos ou indicados para cumprirem suas obrigações administrativas e, assim, servirem ao campus de Itabira e, portanto, à Unifei.
    Afinal, no conceito administrativo mais básico que ensinamos em nossas disciplinas acadêmicas, para que haja um modelo que se apresente como tal é imperioso que este seja formalizado. Sem a adoção desse conceito não há gestão que possa ser chamada de profissional. Faço questão de enfatizar o termo formal porque sem ele o que ocorre depende unicamente da vontade do reitor, e não é assim que uma instituição moderna, democrática e eficiente deve ser conduzida. Nesse contexto, tenho, nessa altura de minha vida, assistido a um deplorável cenário em que indivíduos se apresentam como democráticos, quando, na verdade, querem tão somente que sua vontade prevaleça a qualquer custo, mesmo que isso implique em forçar a vontade de uma minoria sobre os demais.
    Vale destacar que não vejo nada de errado com o modelo presente no campus sede dessa maravilhosa instituição, criação inovadora do nosso fundador, o grande Theodomiro Carneiro Santiago, e de muitos outros que, ao longo de nossa história centenária, o aprimoraram e nos permitiram chegar até onde estamos. Que o nosso fundador sirva sempre de inspiração a todos nós: esse, sim, um inovador ao implantar um ensino prático no início do século XX, além de ser um homem de imenso senso de realização.
    Esse suposto modelo a que essas pessoas, velada e explicitamente se lançaram em defesa de forma tão agressiva, nunca foi escrito, nunca foi discutido, não se encontra, sequer no Planejamento Estratégico e no Plano de Desenvolvimento Institucional. Esse suposto modelo, sobre o qual tanta comoção tem sido provocada, pode existir no imaginário de algumas pessoas, mas, do ponto de vista institucional, ele não existe, insisto, pois que nunca foi discutido coletivamente, deliberado em instância superior e registrado em nossos documentos, como é próprio e necessário em instituições de fato democráticas.
    Lamento que ao abandonar o cargo, o diretor de campus tenha desperdiçado a oportunidade ímpar de tirar vantagem do Consuni, o fórum apropriado para que, na condição de conselheiro, argumentasse adequadamente para definição e defesa desse modelo ainda hipotético. Então, só posso depreender que optou-se pela decisão mais fácil, ainda que menos honrosa, ou seja, a de simplesmente desistir desse momento de análise e deliberação. Aliás, na citada carta, há desculpas quanto a não participação do Consuni sob a alegação de que no dia 04/12 não houve sessão do conselho superior. É impressionante! Quantos encontros nos quais se registrou a ausência do diretor por motivos variados e, em especial, na última com o abandono de cargos já declarado pelos autores da carta aberta. Diga-se de passagem, sessão esta em que os conselheiros de Itabira sofreram uma tentativa de impedimento por parte da Representação Estudantil para que adentrassem no ambiente onde ela seria realizada.
    De um lado, uma tentativa ilegal de se barrar servidores públicos de trabalharem e, por outro, dirigentes que, na condição de conselheiros, “abriram mão” da oportunidade de, após quase dez anos de criação do campus avançado, discutirem, finalmente, as questões regimentais relativas ao campus de Itabira. Devo confessar que eu esperava ansiosamente a oportunidade de um profícuo debate de ideias, cuja discussão por sinal ocorreu, mas sem a presença do Sr. Dair, por decisão dele próprio. Devo afirmar que me agradam discussões de ideias e que tenho grande respeito por pessoas que se apresentam corajosamente para o debate, mas não com esse tipo de postura. Afinal, fica a questão: pelo fato de que o então diretor do campus avançado resolveu se excluir do debate, vale ele se excluir, também, de sua responsabilidade, colocando a culpa do fracasso de seus interesses no Consuni e em sua presidência? É um deboche! Ao apresentar, à revelia do conselho máximo, a proposta de se fazer uma consulta – exclusiva para o campus de Itabira – pelo recém-criado Conselho de Campus, o então diretor de campus executou uma manobra absolutamente infeliz. Quero destacar que: o Conselho de Campus foi criado mediante decisão do Consuni; é subordinado ao Consuni e; sua concretização se deu por iniciativa da Reitoria e não pela Diretoria do Campus Avançado. Vale destacar, também, que há no Consuni expressivo número de conselheiros do campus avançado – algo não usual na maioria dos campi avançados de outras instituições.
    Notadamente no segundo semestre do ano de 2017, um conjunto de ações foram deliberadas no Consuni, tanto em termos da construção do Regimento Geral da Universidade quanto do Regimento da Administração Central, com impacto em toda a instituição, inclusive no campus avançado. Seu detalhamento contou com a iniciativa exclusiva da Reitoria em pautar no Consuni a discussão de aspectos que favoreceram a descentralização e a impessoalidade no campus de Itabira, em consonância com a mesma filosofia já praticada no campus sede. Para se entender as nuances dessa inusitada situação é preciso conhecer a cronologia dos acontecimentos, cuja sequência repasso abaixo:
    i. A Reitoria, e não a Diretoria do Campus, decidiu pela separação de funções entre Diretor de Campus e Diretor de Unidade Acadêmica, em consonância com o já aprovado Regimento Geral da Unifei. Desta maneira, não permitindo que o Diretor de Campus, que deve atuar principalmente na área administrativa, continuasse acumulando funções como Diretor de Unidade Acadêmica. Tal ação interrompeu a concentração de poder em um só indivíduo.
    ii. A Reitoria pautou a criação do Conselho de Campus, novamente sem que houvesse qualquer iniciativa ou interesse demonstrado nesse sentido pelo então diretor de campus, o Sr. Dair. Dessa forma, regularizou-se esse fórum no Regimento da Administração Central em consonância com o Regimento Geral. Anteriormente, havia apenas a Assembleia da única Unidade Acadêmica do Campus. Com o Conselho de Campus, todos os extratos do campus, inclusive servidores técnico-administrativos (STAEs), passaram a estar mais bem representados, tendo maior participação no fórum maior do campus fora de sede, algo que não acontecia anteriormente.
    iii. A Reitoria resolveu colocar em discussão o número de unidades acadêmicas no campus de Itabira. Para tanto, levou ao Consuni proposta, a qual foi aprovada, de formação de comissão de estudo do número de unidades. Nessa comissão, composta por oito membros, seis deles eram do campus de Itabira, destacando-se que a metade de todos os membros foram indicados pelo próprio diretor de campus. Não haveria, pois, razão alguma para que essa comissão não fosse abraçada pela então direção do campus.
    iv. Na primeira sessão do recém-criado Conselho do Campus, tendo o Sr. Dair como seu presidente, decidiu-se por abrir uma consulta, sem autorização do Consuni e sem qualquer definição de metodologia. Essa abordagem, por ser paralela às ações do Consuni, denotou claro desrespeito às diretrizes do conselho máximo da Universidade e, por essa razão, não foi permitida pela presidência do Consuni.
    v. A comissão, com ampla participação da comunidade acadêmica, finalizou seu relatório com a conclusão de recomendação ao Consuni de aumento de unidades acadêmicas para o campus de Itabira.
    vi. Ainda assim, o então diretor de campus, prof. Dair de Oliveira, se utilizou do Conselho de Campus para discutir o relatório e encaminhar o resultado da consulta como informação adicional para ser considerada quando da deliberação final que estava para ocorrer no Consuni. Curiosamente, o “tiro saiu pela culatra”, pois que o próprio Conselho de Campus deliberou favoravelmente às conclusões do relatório, ou seja, a existência de mais de uma unidade no campus avançado.
    vii. A comissão, apresentou seus trabalhos ao Consuni no dia 27/11/2017. Nessa sessão, o Sr. Dair preferiu não comparecer. Afinal, já havia “jogado a toalha” com a carta aberta, na qual ele e toda sua equipe abandonaram os cargos para os quais haviam sido eleitos ou apontados.
    Acredito que imaginaram que essa ação de abandono de cargos pudesse, talvez, ser considerada como um manifesto em defesa desses valores, vagos e confusos, até porque lá não estiveram para elucidá-los. De fato, tal conjunto de ações terminou pateticamente como começou, com seus possíveis apoiadores se esquivando de discussões corajosas no fórum adequado.
  1. Um dos trechos que considero mais ofensivo na tal carta aberta é quando seus autores falam que “renunciar” também visava proteger a saúde física e mental de cada um deles. Pois vou repassar a quem possa interessar alguns exemplos, realmente nobres, de indivíduos que correram riscos imensos quanto à saúde física e mental, não só deles próprios, mas também de seus familiares e amigos. Pessoas que, em meio às adversidades, responderam com abnegação e, até mesmo, grandes sofrimentos, mas nos deram testemunhos de que cada um pode fazer mais e melhor em prol do bem comum. O estágio que hoje desfrutamos é devido em grande medida a essas pessoas:
    a) Theodomiro Carneiro Santiago pagou caro por agir corajosamente contra a ditadura Vargas. Como consequência, foi exilado, vindo a falecer em 1936, três anos após seu retorno em consequência de sua saúde já extremamente debilitada. No entanto, nos deixou exemplos maravilhosos de dignidade e coragem, sendo a Unifei seu maior legado às gerações futuras (Diegues, F. UNIFEI – 100 Anos de História, p. 89).
    b) Quando nos anos 40, devido ao enorme passivo que o Instituto Eletrotécnico de Itajubá, IEI, então escola privada, amealhara, decorrente dos custos elevados de manutenção e à parca receita proveniente das anuidades, ainda assim professores permaneceram lecionando, apesar de não receberem seus salários (id., p. 164);
    c) Nessa mesma ocasião, na iminência da venda da nossa instituição para empresários da cidade de Campinas, nossos estudantes recusaram oferta vantajosa para abandonarem a instituição e se mudarem para São Paulo (ibid., p. 167);
    d) Naquele momento de grande dificuldade, na iminência do desmantelamento do IEI e da venda de seus equipamentos e instalações para grupos empresariais do Estado de São Paulo, a instituição foi salva pelo apelo popular, de alunos e da comunidade, e pela ação de seus dirigentes e de políticos que abraçaram nossa causa. Esse tremendo desafio, garantir educação de alto nível, foi possibilitada pela ação de grandes homens, como Vidal Dias, dirigente da Companhia Sul Mineira de Eletricidade, e dos irmãos João e José Braz Pereira Gomes, da Companhia Industrial Sul Mineira. Os recursos financeiros obtidos permitiram sanear as contas da instituição e garantir seu futuro (ibid., p. 165 e 166);
    e) Com a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, os célebres professores alemães Richard Bran e Herbert Lindenbein perderam suas cátedras e tiveram que se isolar com seus familiares, em extremas condições, na Serra da Mantiqueira. Sobreviveram, contando somente com o trabalho braçal de cada um e com a solidariedade da gente simples que vivia no local (ibid., p. 113).
    Não é, pois, com resmungos volúveis, mimados e ressentidos, dessa patética postura mimimi de vitimização que a Unifei precisa. Pelo contrário, o que, de fato, precisamos, como qualquer instituição e, principalmente, o próprio país, é de atos nobres e atitudes corajosas similares às de tantos que, ao longo de nossa história, mostraram-se fundamentais para que sobrevivêssemos e progredíssemos.
  1. A carta aberta acusa o Consuni e a Reitoria como responsáveis por ações que representam um retrocesso para a autonomia existente no campus de Itabira. Vou sintetizar com uma frase: isso é uma mentira deslavada. Toda a autonomia de que o campus de Itabira hoje usufrui foi conseguida apenas após 2013, quando assumimos a administração da Unifei em sintonia com a postura descentralizada e impessoal que temos tentado implantar na Universidade como um todo. Autonomia essa que, por sinal, a maioria dos campi avançados de outras instituições ainda não possuem na mesma proporção. De fato, até o início de 2013, quando iniciamos a atual administração, passados quase cinco anos do início formal das atividades da Unifei em Itabira, o campus avançado era mencionado em uma única frase de uma ata do Consuni, visto que sua aprovação era necessária para envio ao MEC. Esse foi o único formalismo que coube ao campus avançado. No mais, não existia oficialmente em nenhum documento formal, deliberado por qualquer de nossos Conselhos Superiores, assim como não tinha representação alguma no conselho superior que se reúne semanalmente, o Cepead. Atualmente, cerca de um terço do Consuni é constituído por nossos colegas e por nossos alunos do campus avançado. Seguramente, o campus avançado possui cada um de seus segmentos, alunos, STAEs e docentes com representação em todos os fóruns de discussão e de deliberação da Universidade. Isso tudo é algo que mereceria elogios e reconhecimento, e não um ataque tão visceral e falso como este. Como bem dizia o eminente romancista francês do século XIX, Gustave Flaubert, “aos incapazes de gratidão nunca faltam pretextos para não a ter”.
  2. Os autores da missiva alegam também que a desistência quanto à continuidade do mandato foi “uma das decisões mais difíceis que já tomamos”. Deve ter sido a segunda mais difícil, a considerar que o então candidato ao cargo em 2015, inicialmente, abandonou o pleito de sua candidatura a diretor de campus sob a alegação de que o reitor reduziria seu mandato, quando o que apenas se cogitou foi o fato de que o Consuni poderia, ao constituir o novo Estatuto e o novo Regimento Geral da Unifei, decidir por questões relativas ao início de mandatos e de suas durações. O Consuni não o fez, mas poderia tê-lo feito. Discussão que se mostrou inócua, pois eles próprios se encarregaram de encurtar seus mandatos.
  3. Os autores da carta, finalmente, conclamam a todos para lutarem pelo campus. Há que se exigir a resposta sobre suas reais intenções, sobre o que de fato querem dizer com “lutar” à luz de nossas obrigações legais como gestores públicos. Sim, pois, caso contrário, não passa de incitamento velado para flagrante desrespeito hierárquico. Cada um de nós que não abandonou o barco, sujeitos a denúncias caluniosas e covardes, está, de fato, na linha de frente, lutando – no bom sentido da palavra – por esta magnífica instituição, que não começou há somente dez anos.
  4. Só há um ponto de concordância, que é a admiração compartilhada quanto ao ex-presidente norte-americano Barack Obama. No entanto, opto pelo trecho da música “Bola de Meia, Bola de Gude”, de Milton Nascimento, que diz: “não posso aceitar sossegado, qualquer sacanagem ser coisa normal.

Por tudo o que foi dito, afirmo que não estou irritado, como foi divulgado. Estou mesmo é indignado, porque, afinal, vejo uma vez mais a calúnia, a mentira e a covardia se apresentarem, assim como a falta de transparência e a truculência na imposição de ideias. Da mesma forma como esse tipo de baixeza não tem prosperado no âmbito de nossa querida instituição, acredito também que um dia – e não há de tardar – esse país será mais justo e mais próspero para com nosso povo.
Tempos difíceis esses onde o próprio modelo de universidade pública de qualidade é equivocadamente visto como custo e não investimento. Tempos esses em que dirigentes sem ficha policial são conduzidos coercitivamente sem que tenham sido sequer intimados judicialmente. Indivíduos que ao se apresentarem para o honroso cargo de dirigentes de uma instituição pública de educação são muitas vezes execrados publicamente como se culpados já o fossem por algo que ainda não foi julgado. Mesmo assim, com todas essas ameaças, ainda temos que nos ocupar com calúnias e difamações, frequentemente anônimas, além de casos como esses que são objeto dessa nota. É um desperdício de tempo e de esforço. De fato, é uma pena que não tenhamos tempo e muitas vezes paz de espírito para nos ocuparmos de maneira mais efetiva ao nosso temporário e honroso ofício de dirigir nobres instituições como a universidade pública brasileira. Ainda assim, afirmo que embora haja dias realmente difíceis, eles são compensados, felizmente, por inúmeras situações que nos enchem a alma de entusiasmo e alegria para continuarmos trabalhando com afinco, pois o objetivo é nobre e meritório. Sou, portanto, grato por esta oportunidade única e muito feliz por estar à frente de uma equipe formidável de pessoas que comungam das mesmas esperanças e ideais.
Hoje, Itabira deve se regozijar, pois possuem um número elevado de representantes de todas as classes ocupando cadeiras em todos os fóruns da Universidade, com regras discutidas coletivamente que nos livram da postura centralizadora e autocrática de termos de aceitar a visão de um ou poucos indivíduos. Ao mesmo tempo, devemos todos nos preparar para continuar a boa luta, decente, transparente, baseada em normas e leis, para buscarmos o bom debate, edificante, porque esse deve ser o nosso compromisso como educadores. Dessa forma, seremos capazes de contribuir para o engrandecimento de nossa instituição na formação de profissionais de alta qualidade, de cidadãos de bem, assim como para a geração de conhecimento, para o progresso e para que a cidadania se implante definitivamente em nosso país. De maneira sucinta, como afirmou nosso fundador, que sejamos todos “…dignos de possuir esse grande país”.
Finalizando, quero deixar claro que a Unifei continuará a buscar o desenvolvimento social e econômico de Itabira e região, com ações conjuntas com a Prefeitura de Itabira, com a Vale e com toda a comunidade itabirana. Nossa missão, além de buscar a excelência no ensino e na geração de conhecimento é também, com trabalho e esforço, a de cunhar nossa marca como uma administração objetiva, transparente e responsável.

Prof. Dagoberto Alves de Almeida
Reitor da Universidade Federal de Itajubá – Unifei