O Furto de Água na Unifei

No final de dezembro de 2018, através de denúncia anônima, na Ouvidoria da Universidade Federal de Itajubá (Unifei), a Reitoria tomou conhecimento de que uma ligação clandestina na rede de água do campus sede havia sido instalada com o objetivo de furtar água da nossa Universidade. Segundo a denúncia, tal ligação abastecia a residência localizada na Avenida Paulo Carneiro Santiago, no 276, bairro Pinheirinho.

No dia 10 de janeiro, equipe de peritos da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa), com o auxílio de servidores do nosso Departamento de Obras e Infraestrutura (Dobi), localizou a ligação no terreno da Unifei, em área adjacente ao referido endereço e interrompeu o fornecimento ilegal de água.

Como a ligação clandestina de água caracteriza crime de furto previsto no Código Penal, a Polícia Militar foi acionada para que fosse feito o Boletim de Ocorrência. Em decorrência, a Polícia Civil foi contatada e determinou que a equipe de peritos se dirigisse até a residência para localizar a ligação clandestina e constatar a fraude, no que foram acompanhados pela Procuradoria Federal e pela Polícia Militar. O resultado dessa operação foi ser o proprietário da residência, Sr. Wolney Wellington Pinto, autuado em flagrante. No início da noite, este mesmo foi liberado da prisão temporária a que estava submetido, mediante pagamento de fiança.

Vale destacar que, após a entrega do laudo pericial, o caso será remetido à Polícia Federal, já que o crime foi cometido contra órgão público federal. A investigação policial irá apurar o prejuízo causado à Unifei para que possa ser feita a cobrança, de tal forma que a nossa instituição seja devidamente ressarcida. Tal investigação permitirá, também, que a Justiça Federal estabeleça a penalização cabível.

Esses são os fatos até o momento, mas que merecem, todavia, sérias reflexões.

As aulas estão recomeçando e a Unifei vai, aos poucos, retomando sua rotina de prover educação e pesquisa de qualidade. Em sua postura incansável de buscar fazer o melhor com recursos cada vez mais parcos, a administração da Universidade não poderia se omitir quanto à divulgação pública de total indignação, objetivo dessa nota. Cabe também a observação de que é curioso como pessoas que se manifestam nas mídias sociais, colunas e mesmo em publicações locais, sempre se colocando como arautos da moral e da retidão alheias, sempre tão ávidas em denegrir a Universidade e seus dirigentes, tenham agora se acautelado, seja não mencionando essa triste e caricata situação, seja omitindo detalhes desse torpe episódio. Esse silêncio ensurdecedor transmite a mensagem de que, para alguns, a ética é discricionária, um mero conceito relativo.

Obviamente, nossa expectativa é de que a apuração e o julgamento não corroborarão, em absoluto, qualquer alegação de desconhecimento da ligação clandestina ou mesmo de sua não autorização, pois que não há como se esquivar da objetividade dos fatos. Afinal, o furto da água ocorreu porque alguém assim o determinou e dele se beneficiou seguidamente ao longo de um período, provavelmente, de muitos anos. Esse crime não ocorreu por acaso. Esse furto dependia de alguém intencionalmente abrir e fechar o registro clandestino para reincidentemente desviar a água que pertencia à Universidade. Segundo a denúncia e mediante constatação dos peritos, esse furto objetivava tão somente abastecer a piscina de uma residência de luxo em um bairro de classe média alta. Isso é uma vergonha! Perde a sociedade, pois que o prejuízo a ser estimado privou a Universidade do atendimento de parte de suas finalidades institucionais, uma vez que esses recursos poderiam ter sido integralmente carreados para as atividades educacionais de nossa centenária instituição.

Ora, a baixeza com que a coisa pública é tratada no Brasil não é prerrogativa tão somente da atuação nefasta de parte de nossos dirigentes, mas também de cidadãos que, encontrando oportunidades ou mesmo produzindo-as, delas se aproveitam para lesar os órgãos públicos. Lamentavelmente, tais condutas são algo que, como salientou Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil, publicado em 1936, desvaloriza o trabalho e favorece aventureiros que desejam “prosperidade sem custo”, o que tem levado à constante apropriação do público pelo privado.

A universidade, especialmente a pública, representa o que há de mais nobre em uma instituição que visa ao bem comum. De fato, a educação é a forma mais efetiva, verdadeiramente sustentável, de garantir progresso material e justiça social, pois que permite mudanças positivas para a sociedade por meio do aprimoramento dos seus cidadãos. Lamentavelmente, essa nobreza não sensibiliza alguns, como se observa nesse lastimável episódio. De fato, nossa história tem sido generosa no registro das mais variadas formas de extorsão das instituições brasileiras. Tais registros corroboram a leitura míope e enviesada dos nefastos de que o estado brasileiro, por ser de todos, não pertence a ninguém e que, portanto, qualquer um pode dele lançar mão para atender seus interesses pessoais. Tal percepção é reforçada pela impunidade que lamentavelmente tem permitido que muitos dos criminosos que lesam o povo brasileiro não sejam devidamente responsabilizados. Nossa história recente é infelizmente farta em registrar fatos escabrosos como os dos Anões do Orçamento, Banestado, Mensalão e Petrolão, apenas para citar alguns dos muitos que prejudicam e envergonham nossa nação.

Que esse episódio nos permita refletir sobre nossa atuação como cidadãos no sentido de que: sejam algumas dezenas de milhares de reais apropriados no desvio de água de uma instituição educacional; sejam os bilhões que têm sido usurpados de nossas empresas públicas e fundos de pensão; sejam as ilicitudes praticadas nas garagens dos palácios governamentais nas altas horas da noite; sejam os museus que são carbonizados pelo descaso de nossos dirigentes ou sejam as barragens que ceifam vidas, esse país somente será de fato mais próspero e justo se as atitudes de cada um de nós assim o permitirem.

Professor Dagoberto Alves de Almeida
Reitor da Universidade Federal de Itajubá