Flavio Fontenelle Loque
Edição. Essa foi uma das noções centrais de minha palestra no segundo evento do Projeto Pausa, intitulado “Mídia e Verdade”, ocorrido na quinta-feira, 27 de junho de 2013, no auditório do Itec, em Itabira – MG. Coordenado por mim, Wagner Diniz e Alessandra Pinheiro, o Pausa é um projeto de extensão da Universidade Federal de Itajubá, cujo objetivo é debater temas cotidianos de um ponto de vista filosófico e que, no mencionado evento do dia 27 de junho de 2013, contou com a participação de Milton Zamboni, que, como eu, fez uma pequena palestra antes de se iniciar o debate. Esse evento, no qual também se tematizou a recente onda de protestos de rua no Brasil, congregou cerca de 50 pessoas, durou aproximadamente três horas e meia e está disponível na íntegra no youtube:
Parte 1/3: http://www.youtube.com/watch?v=pF1kYBjg-io
Parte 2/3: http://www.youtube.com/watch?v=pfQAeaUPKAk
Parte 3/3: http://www.youtube.com/watch?v=fC0yTb9Rw2k
Destaco a noção de edição como central em minha fala porque pretendo posicionar-me frente à cobertura do evento “Mídia e Verdade” feita pelo DeFato Online na reportagem “Professor da Unifei compara manifestações a micaretas” assinada por Tatiana Santos e veiculada no dia 28 de junho de 2013 às 11h35 (http://www.defatoonline.com.br/noticias/ultimas/28-06-2013/professor-da-unifei-compara-manifestacoes-a-micaretas/busca/Unifei). Julgo necessário posicionar-me porque a reportagem, embora não seja incorreta, não faz jus àquilo que eu disse. Pretendo, pois, tomá-la como um exemplo contundente daquilo que expus às pessoas que estiveram presentes (particularmente a noção de tempo ou espaço como um condicionamento do campo jornalístico) e que explico a seguir com o intuito de elucidar qualquer mal entendido, como aquele revelado no comentário da leitora Maria Alice Santos postado às 18h41 do dia 28 de junho de 2013: “Confesso que não compreendi o termo “micaretas cívicas”. Acredito que o povo na rua não tem sido [sic] para uma festa fora de época, como cidadã brasileira e participante das manifestações, tenho visto na minha simplicidade pessoas angustiadas pelo acaso [sic] e debates intermináveis e sem ações de políticos e intelectuais”. Ainda a título introdutório, observo que já publiquei um artigo na revista “De Fato” (ano XX, nº 252, abril de 2012), quando do lançamento do meu livro “Ceticismo e Religião no Início da Modernidade” (São Paulo: Loyola, 2012), e que não sofri qualquer tipo de censura ou constrangimento, exceto aquele imposto pela limitação do espaço, certamente o mesmo que se colocou à jornalista Tatiana Santos.
Partindo de alguns vídeos que registraram episódios dos protestos em Belo Horizonte no sábado, dia 22 de junho de 2013, intitulados “BH 22.06 / Policial ataca manifestante pacífico e confronto se inicia” e “Manifestantes avançam contra a cavalaria da polícia [Belo Horizonte 22/06/2013]”, além do “Como filmar uma revolução”, todos disponíveis no youtube, levantei a seguinte questão acerca dos registros dos confrontos entre manifestantes e policiais nas proximidades da UFMG: esses vídeos são verdadeiros? A resposta me parece óbvia: sim, são verdadeiros. Entretanto, à pergunta “eles representam adequadamente o protesto?”, a resposta inverte-se: não. Esses vídeos não representam adequadamente o protesto porque registram episódios pontuais, que não condizem à sua duração (mais de seis horas), nem à quantidade de manifestantes (algo entre cem e duzentas mil pessoas). Sendo assim, parece-me que claro que uma reportagem adequada do protesto não poderia se dar sem alguma forma de edição.
Se isso é verdade, cabe então refletir sobre a noção de edição e, inevitavelmente, sobre a de neutralidade. Editar implica decidir o que (e como) será exposto e o que não será exposto, implica, pois, uma seleção, o que só pode ser feito a partir de uma determinada compreensão do que é reportado. Como escolher as partes pretensamente representativas do todo sem ter dele uma concepção? É a concepção que se faz do todo que guiará a edição. Em outras palavras, é impossível haver uma notícia que não envolva uma compreensão prévia do que é noticiado, o que significa dizer que é impossível dissociar news e views, como o formato dos jornais e telejornais parece pressupor ao instituir a figura do jornalista (que reporta) e do analista (que comenta). A elaboração da notícia se faz de uma determinada perspectiva, a qual direcionará a edição, a reportagem. Não há, portanto, neutralidade.
Esse é talvez o primeiro grande condicionamento a que os jornalistas estão submetidos: a necessidade de elaborar uma compreensão do que se passa a fim de, então, realizar a reportagem-edição. Note-se que, ao menos até esse momento, não é o caso de falar em manipulação, mas de reconhecer que o “fato” supostamente “transmitido” pelo jornalista é “construído” a partir de uma determinada compreensão daquilo que foi reportado. Essa compreensão é influenciada pelas idiossincrasias e pela formação do jornalista, elementos dos quais é impossível prescindir.
É claro, porém, que os jornalistas possuem preferências políticas, mas acredito, talvez ingenuamente, que elas se tornam mais evidentes quando pensamos nos veículos de comunicação (por exemplo, Veja, Caros Amigos). É nesse âmbito, o das “linhas editoriais”, que se pode falar propriamente em manipulação, uma vez que muitas vezes há, deliberadamente, a intenção de favorecer esta ou aquela tendência política, este ou aquele partido, este ou aquele candidato. No caso dos atuais protestos de rua, por exemplo, é notório que as reivindicações expressas em cartazes são bastante diversas (mobilidade urbana, educação e saúde públicas de qualidade, combate à corrupção, investimentos na Copa do Mundo, crítica a partidos e à representatividade partidária, estado laico, direitos LGBTT, repúdio ao Marcos Feliciano, recusa da PEC 37 e do Estatuto do Nascituro) e, não obstante, que alguns órgãos de imprensa insistem em pinçar algumas entre essas causas. Aliás, acredito que é justamente por causa dessa diversidade de reivindicações que as ruas reuniram tantas pessoas, muitas das quais com um comportamento mais festivo que político, o que permite que se fale, em tom irônico, de micareta cívica. Entretanto, constatada a pletora de reivindicações e os constantes embates entre manifestantes e policiais, cujas razões certamente não se reduzem à presença de vândalos, parece-me evidente que a insistência sobre um grupo restrito de reivindicações, a ênfase sobre o executivo federal e repercussão do vandalismo têm clara conotação política na medida em que, por um lado, arrefece as discussões mais amplas sobre a reforma política e a pouco ou nada mencionada reforma do judiciário e, por outro, favorece a oposição nas eleições presidenciais de 2014.
Ainda no que se refere aos condicionamentos a que as edições jornalísticas estão submetidas, há que se destacar outros dois. Em primeiro lugar, o tempo (ou espaço). As reportagens dos telejornais são, no mais das vezes, muito curtas, questão de poucos minutos, assim como ocupam poucas páginas as notícias nos jornais de maior circulação, reduzindo-se a míseros parágrafos nos jornais populares. O que se pode esperar de reportagens tão curtas? Em segundo lugar, a audiência. Os veículos de imprensa dependem dos anunciantes para se manter e, por causa disso, precisam, a todo custo, assegurar a audiência, que deve ser tão grande quanto possível. Ora, como ampliar a audiência senão por meio de reportagens que agradem ao maior número possível de pessoas? E como agradar ao maior número possível de pessoas sem ser anódino, superficial, palatável a todos os gostos, isto é, sem eximir-se da profundidade e da polêmica? Além disso, quem há de negar que, a fim de atrair a atenção, dá-se muito espaço ao bizarro/espetáculo? Que manchetes chamativas têm se tornado regra?
De que maneira, porém, leitores e espectadores podem conseguir uma melhor compreensão dos “fatos”? A alternativa é dupla. É preciso ter acesso à maior diversidade possível de perspectivas, razão pela qual há um movimento (também presente nos atuais protestos de rua) em prol da chamada democratização da comunicação (a esse respeito, sugiro consultar a página do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação). Além disso, pensando a longo prazo, também é necessário elevar o nível da educação para que espectadores e leitores tenham melhores condições de interpretar o que é veiculado na mídia.
No que se refere aos protestos de rua, fiz alguns apontamentos em minha palestra, os quais não ganharam espaço na reportagem da DeFato. Destaco-os rapidamente, portanto:
(1) Acredito que os gritos da rua voltados contra a corrupção ecoam uma grande ilusão: a de que o problema político no Brasil se deve a um determinado partido (o alvo da vez é, evidentemente, o PT) ou aos corruptos (ênfase dada aos ditos mensaleiros, pouco se falando do chamado Mensalão do PSDB, da privataria tucana ou do desvio de R$ 4,3 bi da saúde no governo Aécio Neves). O auge dessa ilusão materializa-se no desejo de que o Joaquim Barbosa, ministro do STF, seja candidato à presidência da república. Creio que pensar em termos de indivíduos ou partidos é insuficiente, pois parece pressupor que basta expurgar os corruptos para que a corrupção deixe de existir. Isso não é cair no maniqueísmo, acreditar que bem e mal são perfeitamente distintos, que apenas de um lado está a decência e somente do outro a desonestidade? A verdadeira questão é institucional, o mais importante é reformar as estruturas políticas e jurídicas – assegurando o Estado Democrático de Direito – de forma a, entre outras coisas, tornar o processo eleitoral menos suscetível ao poder econômico e assegurar que corruptos e corruptores sejam punidos.
(2) Parece-me, não obstante, que há uma crise de representatividade e que, havendo uma reforma política, será preciso fortalecer as instâncias de participação popular já existentes (como as audiências públicas) e ampliar suas formas, admitindo, quem sabe, a possibilidade de candidatos ditos avulsos ou pertencentes a movimentos sociais.
(3) Arrisco-me a dizer que o mote “o gigante acordou” tem tomado a conotação de que o Brasil está em péssima situação política, social e econômica e que uma mudança radical é urgente, como se os dez anos do PT na presidência da república tivessem provocado um profundo atraso, quiçá retrocesso, no Brasil. Penso que é elucidativo o slogan de Eduardo Campos: “é possível fazer mais” pressupõe que algo, talvez muito, tem sido feito. No entanto, não seria surpreendente se, após a onda de protestos nas ruas, víssemos o PSB assumir uma postura nova e oportunista, algo como “é preciso recomeçar”, “é preciso colocar o Brasil nos eixos”.
(4) É interessante, todavia, que se vejam nas ruas tantas pessoas clamando por educação e saúde públicas, gratuitas, para todos e de qualidade. Isso é algo que poucos países no mundo conseguiram e que representa um anseio por um Estado mais intervencionista, reivindicação mais afeita à esquerda, especialmente se considerarmos o alinhamento do PSDB/DEM com o liberalismo econômico e a tendência ao Estado Mínimo.
(5) Acho, por fim, que vivemos apenas o primeiro tempo (permitam-me a metáfora futebolística) de toda essa onda de protestos de rua. É difícil saber o quanto eles vão durar, mas, ainda que se interrompam em breve, o mais importante se dará no segundo tempo, isto é, o mais importante virá quando as ruas tiverem silenciado seja, por um lado, para saber quais as reivindicações reverberaram no congresso nacional, nas assembleias legislativas e nas câmaras municipais, seja, por outro, para saber como a onda de protestos será interpretada em 2014, quando ocorrerão as próximas eleições. A interpretação predominante dos protestos de rua é que determinará quais candidatos e partidos conseguirão obter ganhos nas urnas. Lembremos todos, a título de alerta, que no Egito, depois do primeiro tempo dos protestos de rua, que também congregaram pessoas com reivindicações diversas, a eleição presidencial foi vencida por M. Morsi, da Irmandade Muçulmana, cujos princípios são uma afronta à multidão de liberais e seculares que enfrentaram a ditadura de H. Mubarak.
Como é evidente, a interpretação dos protestos de rua que se tornará dominante é altamente influenciada pelos grandes veículos de imprensa, todos alinhados com a oposição (digo, com os partidos da direita), mas não deixa de ser ponderada, sobretudo entre os mais jovens, pelos blogs, redes sociais e pela mídia independente. Dessa disputa pela interpretação dos protestos de rua, também participam intelectuais, artistas, professores universitários, que atuam segundo sua relevância e notoriedade. Aposto, porém, no valor das micro-ações e penso que qualquer tentativa de diálogo que faça frente às paixões partidárias e que explicite os condicionamentos do campo jornalístico contribui para o esclarecimento público.
PS: Esta Nota de Esclarecimento foi publicada na íntegra pelo DeFato Online: http://defatoonline.com.br/noticias/ultimas/02-07-2013/nota-de-esclarecimento-midia-e-verdade-projeto-pausa
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