Fábio Fowler é professor da Universidade Federal de Itajubá (Unifei), universidade onde se formou como engenheiro mecânico e voltou anos mais tarde para preencher as lacunas deixadas em seu currículo, como a formação necessária para tocar seu próprio negócio. Hoje Fábio é diretor de Empreendedorismo e um dos responsáveis pelo Centro de Empreendedorismo (CEU) da Universidade, com projetos voltados para disseminação de empreendedorismo por toda a universidade.
Quando surgiu o Centro de Empreendedorismo?
Eu falo que o Centro existe desde 1994 nos artigos. Mas o Centro era eu e Deus, não tinha outros professores, a gente fazia projetos, junto com alunos, voltados para o desenvolvimento do empreendedor e a formação de gestão empreendedora. Então eu falo que entre 94 e 96, que a gente chamava Centro GEFEI nos artigos que eu escrevia, mas esse Centro, essa área de 640m², era um sonho de nove anos atrás que se realizou em novembro de 2010 que foi inaugurado esse Centro.
Quais os tipos de atividades desenvolvidas no Centro?
Como eu falei para você o Centro já existia sem ter a área física, nós trabalhos com o modelo que se chama: Programa de Desenvolvimento de Empreendedorismo (PDE). É um modelo que a gente desenvolveu na nossa dissertação de mestrado que ele trabalha com várias questões do contexto externo, local, o contexto interno da organização que quer realizar esse Programa de Desenvolvimento de Empreendedorismo em todos os aspectos: clientes, material, objetivos e aprendizagem. Então existem várias ações, o primeiro PDE de grande impacto foi o curso de Administração, um curso noturno com habilitação em Empreendedorismo e Negócios. Hoje tirou-se a habilitação porque o Ministério da Educação proibiu ter habilitações em Administração, mas toda a linha de formação do curso é voltado para o empreendedorismo e negócios. Para você ter uma ideia, o próprio trabalho final de graduação do aluno do curso de Administração é voltado para criação de um novo negócio. Então, esse foi o primeiro que bem se sucedeu. Hoje tem os melhores indicadores com o curso de Administração, a avaliação antigamente era o Provão hoje é o Enade, sempre está entre os primeiros, sendo que as duas últimas avaliações o curso pegou o primeiro lugar. Desse modelo nós vimos que deu muito certo e a gente quis sempre aplicar para outros níveis de ensino. Em 2010 para 2011, criamos através do PET, Programa de Educação Tutorial, que trabalhamos com alunos da Administração, voltada para o desenvolvimento de Ensino, Pesquisa e Extensão. Através dos trabalhos que a gente está pegando com eles, começamos a criar alguns outros PDEs voltados para o Ensino Fundamental, Ensino Médio, Ensino Técnico e a Universidade como um todo. Então a gente tem o objetivo de alcançar a universidade com educação empreendedora até 2016 com 50% dos alunos. Que ações que nós fizemos? São muitas. São ações voltadas para o desenvolvimento comportamental, que é o comportamento empreendedor, desenvolver a habilidade empreendedora de comunicar, trabalhar sobre pressão, falar em grupo, negociação, liderança, criatividade. Isso é feito formalmente em disciplinas ou é feito em atividades como o Startup Weekend. Então nós temos ações voltadas para o comportamento, desenvolvimento do comportamento, e ações voltadas para criação de negócios. Para criação de negócios temos uma disciplina “Criação de Ideias e Negócios”, que é uma disciplina oferecida para as engenharias e ciências da universidade, porque a Administração já tem tudo, está tudo preparado, o que nós queremos dos alunos de Administração trabalhem juntos com as alunos das engenharias e das ciências, para a criação de novos negócios. Agora estamos indo para a engenharia e para as ciências para mexer no comportamento, para mostrar que criar o próprio negócio é uma oportunidade também e que isso talvez, em algum momento, gere relacionamentos que a gente chama multidisciplinar, de alunos das várias áreas trabalhando juntos para criação de negócios. Não adianta você colocar dois ou três engenheiros para abrir uma empresa. Você tem que misturar pessoas de engenharia, pessoas da área de design, pessoas da área de negócios para desenvolver negócios. O CEU está criando um ambiente que possibilite essas ações, todas as nossas disciplinas são voltadas para criar essa multidisciplinariedade, juntar pessoas de várias áreas. Essas são ações muito mais voltadas para comportamento, ações pontuais, mas de extrema importância, como é o Startup Weekend é objetivo do Centro ter pelo menos uma vez por semestre atividades como essa. Agora já estamos fazendo outro e estamos fazendo outra ação um pouquinho mais longo, mais focado com quarenta alunos das várias áreas que comentei: engenharia, negócios e desenvolvimento. Nós temos também o empreendedorismo social. Em novembro, na semana do aniversário de 100 anos da universidade, coincidentemente, bate com a Semana Global de Empreendedorismo, que é o movimento mundial do empreendedorismo. Nós temos o objetivo de fazer nessa semana o empreendedorismo social, já estamos via Facebook, na rede social, tentando trazer alunos interessados em fazer ação social, alunos da universidade. No Facebook nós temos em torno de cento e pouco alunos já envolvidos com isso, agora depois do Startup Weekend vou começar a trabalhar mais nisso. Nosso objetivo é ter pelo menos 500 alunos nesse projeto em um período de prova, isso que é o mais dificultoso para nós. Em um período de provas o mundo quer trabalhar com o empreendedorismo e nós queremos colocar alunos trabalhando com projetos sociais para desenvolver atividades empreendedoras e ao mesmo tempo promover alguma coisa em melhoria para pessoas na sociedade. Então a gente está trabalhando com a Prefeitura, junto com a Secretaria de Educação, nas escolas públicas e também com a Secretaria de Assistência Social. Vamos buscar projetos que possam ser trabalhados junto a essas entidades sociais, que são credenciadas pela prefeitura.
Qual a importância de uma formação empreendedora na Universidade?
Nós vivemos em um país onde a minoria das pessoas alcançam a universidade. Ou seja, a minoria é a elite. O ensino formal de qualidade dá oportunidade a essa elite, ninguém mais do que ela tem por obrigação não unicamente procurar emprego, essas pessoas tem que gerar projetos que busquem gerar riqueza e emprego para o resto da sociedade. A universidade tem por obrigação, não todos os alunos, mas formar empreendedores. Existem três níveis de empreendedores. O intra-empreendedor, que é o empreendedor das grandes instituições, pode ser as grandes multinacionais, as grandes estatais, pode ser o governo, nós precisamos de líderes empreendedores no governo, em hospitais, em entidades de grande porte. Existe também os empreendedores tradicionais, nessa camada da sociedade, os universitários, também muito deles poderiam trabalhar em pequenas empresas, sucedendo os pais, melhorando a competitividade dessas empresas que hoje a gente sabe que, é claro que não é um número como era nas décadas passadas, mas ainda a grande maioria não tem formação superior. Uma pessoa com formação superior com certeza deveria ter uma melhor competência para gerenciar os seus negócios, então o empreendedor tradicional a universidade também tem que formar. E também o empreendedor de alto impacto, o que é o empreendedor de alto impacto? São aqueles empreendedores que criam empresas que geram um crescimento de mais de 20% ao ano, rápido crescimento em termos de faturamento, como também de geração de emprego. O mau da sociedade atual é não ter trabalho para todo mundo e a gente sabe que na nossa sociedade, sem trabalho, não há dignidade. Então eu acho que com educação empreendedora nós podemos sim, na universidade, formar pessoas para ajudar na geração de emprego.
Como que funciona a ligação entre o CEU e a Incubadora de Empresas?
Não é como a gente queria, mas já estamos em conversação, tivemos algumas reuniões, nós queremos integrar todo o processo de pré-incubação, incubação e criação de empresas de base tecnológica. Hoje ele não está tão integrado, mas nós temos muitos alunos, dos programas que nós corremos aqui no CEU, ou no Centro anteriormente fora dessa estrutura física, que estão na Incubadora, então várias das empresas que estão lá tem alunos que passaram por programas de desenvolvimento empreendedor hoje. Só que nós queremos melhorar esse processo, nós queremos integrar ele melhor e na nossa proposta, nossa visão, que foi apresentada junto a reitoria, o CEU tem papel de fazer a pré-incubação, de colocar as melhores ideias e criar programas que gerem potenciais negócios para serem incubados na Incubadora. O que a gente via em algumas empresas que chegaram a passar e estiveram lá ou estão na Incubadora, elas ficaram muito mais no processo de pré-incubação do que incubada. Então a gente quer cortar isso porque isso não é muito efetivo. Imagina uma empresa que fica pré-incubando aqui no nosso Hotel de Ideias e Hotel de Projetos? Ele pode passar pelo Hotel de maneira formal, passando por alguns programas que nós temos aqui dentro e ganhando a formação complementar em empreendedorismo ou de maneira informal, através de coating, ‘professora fiz sua disciplina, tenho essa ideia, tenho meu grupo o senhor quer acompanhar a gente?’, e os professores darão esse coating para esse grupo, se nós acreditarmos que o grupo está focado, investindo sua energia, para querer trabalhar de uma maneira espontânea, aí eles são acompanhados periodicamente para saber se eles estão fazendo a tarefa no processo de pré-incubação ou Hotel de Projetos. Quando nós acharmos que ele está preparado para incubar ou até mesmo sair da pré-incubação, sair do CEU, para ir para rua, ele vai sair. Nossa proposta é essa, dar oportunidade para que ele venha modelar o seu negócio, acertar, errar, criar seu MVP (Produto Mínimo Viável), criar seu protótipo aqui. Na Incubadora existiam algumas empresas que entraram que não tinham nem o protótipo comercial, no meu conceito de incubação, acho que a empresa tem que ter no mínimo um protótipo lá dentro. Essa é a proposta que nós fizemos e eu acredito que isso é de comum acordo que o CEU estará fazendo um processo de pré-incubação até chegar um protótipo ou mínimo produto viável para ser incubado na Incubadora.
Qual a importância do CEU para a cidade de Itajubá?
Como eu te disse, nós queremos trabalhar com cultura. O CEU tem visões, ele trabalha com modelagem. Nós temos que praticar aquilo que nós ensinamos, então temos a nossa modelagem e na nossa modelagem, temos vários segmentos de clientes. Existem os clientes universitários, os alunos das engenharias, administração e ciências, mas existem segmentos da sociedade. Primeiro, nós queremos fornecer educação empreendedora em todos os níveis, treinamos cinco escolas municipais, já treinamos duas estaduais e treinamos uma de Delfim Moreira, que é uma escola técnica que é a Fundação Roge. Hoje nós treinamos cerca de 220 professores que se você multiplicar por 25 alunos, olha quantos alunos estão sendo impactados. Como nós modelamos, nós traçamos nossos objetivos. Traçamos e dissemos que daqui cinco anos essas escolas, que hoje, são escolas de comunidades populares, são escolas que tem os seus indicadores Ideb, Provinha Brasil, Enem, não os melhores. Vamos mostrar que educação empreendedora vai melhorar esses indicadores. É a melhor forma de ensinar. Só que agora a gente está ensinando não para entregar o conteúdo, estamos ensinando o aluno, a criança, a ter a competência empreendedora. Vou falar igual a Marther Luther King, “I have a dream”, “Eu tenho um sonho” que de 25 a 30 anos não vai mais ser necessário ensinar empreendedorismo na universidade, porque os alunos já vêm formados com essa competência. Esse é um sonho, espero que não seja uma ilusão. Tem outros segmentos, tem os pequenos empresários. Nós trabalhamos com pequenos empresários através de programas gerenciais. Hoje nós temos um Clube de Empreendedorismo que ele é coordenado por empresários da cidade que semanalmente se reúnem aqui para discutir, bater um papo, ver necessidades e tentar aprender sobre algum assunto que é de interesse comum deles, chama-se Clube de Empreendedorismo, que misturam alunos da universidade com empresários da cidade.
Fale um pouco sobre o lema: criar e gerenciar.
Ele não é um lema, é uma definição. Essa é a nossa definição: empreendedor é uma pessoa que cria e gerencia projetos. O que são projetos? São ações, sonhos e visões, que necessitam, para ser realizada, recursos financeiros, recursos materiais e pessoas que tem como objetivo o lucro, algumas vezes financeiros e outras vezes social. Lucro: melhoria do ensino, melhoria da qualidade de vida das pessoas, melhoria do relacionamento entre pessoas. Tem algum objetivo de lucro para atender um grupo de clientes. Você pode ter um projeto, que é um projeto social, como é o PET, de junto as escolas melhorar o ensino dessas escolas. Pode ser um projeto de criação de startups, que é um projeto financeiro de ajudar pequenas empresas que são startups tecnológicas, criar negócios rapidamente com alto impacto que criem receitas, criem empregos e lucro.
Tem mais alguma coisa que você gostaria de acrescentar?
Tem (risos). Qual o objetivo do CEU? De tudo que a gente fez, a gente sedimentou muito as coisas no curso de Administração, então nós formamos aqui no CEU um comprometimento de sair do curso de Administração, isso foi de 2010 para cá. E nesse comprometimento, até 2016 nós vamos alcançar 50% dos alunos da universidade. Para os alunos da universidade, tenho certeza que nós vamos aumentar o número de empreendedores, mas o principal é o empreendedor de alto impacto, criar uma empresa como Spoleto, uma empresa como o Netshoes, uma empresa como o Facebook ou Google. Nós colocamos uma meta que daqui cinco anos no máximo vai sair uma empresa dessa daqui do CEU. E outra meta, é que nós entramos agora nos últimos dois anos com educação empreendedora no ensino médio, ensino fundamental e ensino técnico. Mas as escolas que estamos trabalhando agora, são sete escolas da prefeitura, a partir do seu secretário Madisson e com a sua diretora Denise, que abraçaram a ideia, conseguimos o programa Mais Educação do Governo Federal, e criamos o Mais Educação Empreendedora, onde vamos entrar com contra-turno com pura educação empreendedora nessas escolas. E nessa meta, queremos que essas escolas que hoje tem indicadores de Provinha Brasil e Ideb não tão bons, eu, aqui no CEU, acredito que nós vamos ter pelo menos o melhor Ideb da cidade de Itajubá em cinco anos, acredito que podemos chegar até do estado em cinco anos, para que nós sejamos modelos para apresentar para o MEC, para Secretaria de Educação e mostrar que um programa como esse é viável, é possível se aumentar os recursos e melhorando a qualidade do ensino, então essa é as duas metas para onde o CEU quer ir, criar empreendedores de alto impacto e impactar a educação nos outros níveis básicos do país. Vem pro CEU, o CEU está aberto para todos.
Fonte: Jornal Itajubá Notícias
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